Entre o sonho e a realidade

O futuro nada mais é que sonhos, projetos, esperanças que só serão possíveis se o hoje assim decidir. Nada mais temos neste mundo senão o exatamente agora. Rodrigues de Andrade

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Local: Paraná, Brazil

segunda-feira, abril 30, 2007

Operário em construção


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mao.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nao sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.



De fato como podia
Um operário em construcão
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pao?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com sour e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento



Alem uma igreja, `a frente
Um quatel e uma prisão:
Prisào de que sofreria
Nao fosse eventuialmente
Um operário em contrucão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
`A mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emocao
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operario em construcão.
Olhou em torno: Gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nacão!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.


Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mao
Sua rude mao de operário
De operario em construcão
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.



Foi dentro dessa compreesão
Desse instante solitário
Que, tal sua construcão
Cresceu tambem o operario
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coracão
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois alem do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o oparaio
Do edifício em construcão
Que sempre dizia "sim"
Comecao a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atencão:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.



E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolucão



Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão nas queria
Nenhuma preocupação.
- "Convencam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.



Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se subito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operario disse: Não!



Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Mouitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porem, por imprescindivel
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.



Sentindo que a violência
Nao dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.



Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é memu.



E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coracao
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um siêlncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arratarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coracão
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porem que fizera
Em operário construido
O operário em construcão.


Vinicius de Moraes



sábado, abril 28, 2007

O Sol e a Lua


Quando o SOL e a LUA se encontraram pela primeira vez,

se apaixonaram perdidamente e a partir daí começaram a viver um grande amor.

Acontece que o mundo ainda não existia e

no dia que Deus resolveu criá-lo,

deu-lhes então o toque final ...o brilho !

Abateu-se sobre eles uma grande tristeza

quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam.

A LUA foi ficando cada vez mais amargurada,

mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado,

ela foi se tornando solitária. O SOL por sua vez havia ganhado um título de nobreza

"ASTRO REI", mas isso também não o fez feliz.

Deus então chamou-os e explicou-lhes:

Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio.

A LUA entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio...

já o SOL ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-seabater pois

teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus.

No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a ELE:

Senhor, ajude a LUA por favor, ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão...

E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela.
a LUA sempre que está muito triste recorre as estrelas que fazem de tudopara consolá-la, mas quase sempre não conseguem. Hoje eles vivem assim....

separados, o SOL finge que é feliz, a LUA nãoconsegue esconder que é triste.
O SOL ainda esquenta de paixão pela LUA e ela ainda vive na escuridão da saudade.

Dizem que a ordem de Deus era que a LUA deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso....porque ela é mulher, e uma mulher tem fases.

Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz éminguante

e quando minguante nem sequer é possível ver o seu brilho.

LUA e SOL seguem seu destino, ele solitário mas forte,

ela acompanhada das estrelas, mas fraca. Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível.

Vez por outra alguns deles vão até ela e voltam sempre sozinhos,

nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até a terra, nenhum deles

realmente conseguiu conquistá-la, por mais que achem que sim.

Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria

de todoimpossível, nem mesmo o da LUA e o do SOL...

e foi aí então que ele criou o eclipse. Hoje SOL e LUA

vivem da espera desse instante, desses raros momentos

que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer.

Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o SOL

encobriu a LUA é porque ele deitou-se sobre ela e começaram

a se amar e é ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse.

Importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande

queaconselha-se não olhar para o céu nesse momento, seus olhos

podem cegar de ver tanto amor.

sábado, abril 14, 2007

Poema da gare de Astapovo


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos

E foi morrer na gare de Astapovo!

Com certeza sentou-se a um velho banco,

Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso

Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo

Contra uma parede nua...

Sentou-se ...e sorriu amargamente

Pensando queEm toda a sua vida

Apenas restava de seu a Gloria,

Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas

ColoridasNas mãos esclerosadas de um caduco!

E entao a Morte,Ao vê-lo tao sozinho aquela hora

Na estação deserta,

Julgou que ele estivesse ali a sua espera,

Quando apenas sentara para descansar um pouco!

A morte chegou na sua antiga locomotiva

(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)

Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,

E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...

Ele fugiu de casa...Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...

Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!