Entre o sonho e a realidade

O futuro nada mais é que sonhos, projetos, esperanças que só serão possíveis se o hoje assim decidir. Nada mais temos neste mundo senão o exatamente agora. Rodrigues de Andrade

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domingo, julho 30, 2006

Do amoroso esquecimento




Eu, agora - que desfecho!

Já nem penso mais em ti...

Mas será que nunca deixo

De lembrar que te esqueci?




Mário Quintana

sábado, julho 29, 2006

O Escaravelho e a Rosa


Não sou como a abelha saqueadora
que vai sugar o mel de uma flor,
e depois de outra flor.
Sou como o negro escaravelho
que se enclausura no seio de
uma única rosa e vive nela
até que ela feche as pétalas sobre ele;
abafado nesse aperto supremo,
morre entre os braços da flor que elegeu.

Roger Martin du Gard

sexta-feira, julho 21, 2006

Vísio


Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam . . .
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam . . .
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram . . .

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes . . .
Depois . . . depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei . . . silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!

Machado de Assis

quinta-feira, julho 20, 2006

Poema VI


Te recordo como eras no último outono.
Eras a boina cinza e o coração em calma.
Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caiam na água de tua alma.

Apegada a meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz lenta e em calma.
Figueira de estupor em que minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.

Sinto viajar teus olhos e é distante o outono:
boina cinza, voz de pássaro e coração de casa
fazia onde emigravam meus profundos anseios
e caiam meus beijos alegres como brasas.

Céu desde um navio. Campo desde os cerros.
Tua recordação é de luz, de fumaça, de tanque em calma!
Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.

Pablo Neruda

segunda-feira, julho 17, 2006

♡♡


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Álvaro de Campos, 21-10-1935

terça-feira, julho 11, 2006

.:.*.:.


"Queria esquecer a luz dos teus olhos,
porque assim eu não sentiria saudades deles...
Queria esquecer tom da sua voz,
o seu jeito de falar, esse sorriso
lindo que só você tem...
Queria tanto, mas não posso,
pois o que sinto por ti é tão forte,
impossível de esquecer,
mas uma coisa é certa, te amo muito,
pois sem você não sei viver...
Mesmo querendo te esquecer,
te amo cada vez mais,
hoje mais do que ontem,
amanhã mais do que nunca!"

(Autor desconhecido)

domingo, julho 09, 2006

Sem olhar


Vejo muitos homens caminhando em silêncio,
todos trazem um sentimento de revolta, querem a paz, querem um mundo melhor, não entendem a violência, não entendem a dor.
Alguns perderam filhos para a guerra urbana, outros viram amigos morrendo, balas perdidas,
viram crianças nas ruas, infâncias perdidas, e não entendem o mal pelo mal.

Seguem em silêncio, sem murmurar, mas dentro de cada um se agita a pergunta:
- Onde está Deus?
Na miséria que assistem, onde está Deus? no "homem bomba" na sinagoga, onde está Deus?
no avião que cai e mata todos, onde está Deus?
no anjinho que morreu nos braços da mãe, onde está Deus?
no quarto onde as crianças choram de fome, onde está Deus?
Na mãe que chora pelo filho nas drogas, onde está Deus?
No pai alcoólatra que acaba com a família, onde está Deus?
No abandono do lar, na traição inesperada, onde está Deus?

E os homens seguem em silêncio, cabisbaixos...
não percebem Jesus estendendo a mão na esquina,
não vêem Jesus no semáforo pedindo ajuda, não socorrem Jesus caído na rua, passam por cima,
não visitam Jesus no cárcere da miséria humana,
não foram sequer levar uma palavra de consolo para Jesus no leito do hospital super lotado.

E os homens seguem em silêncio, sem olhar para o alto,
apenas reclamam, julgam sem conhecer, falam sem saber, não conhecem os vizinhos, brigam pelo nada,
sonham com conquistas vazias, efêmeras...
Mas Deus, na sua infinita misericórdia, por conhecer a nossa condição de crianças na fé,
segue atrás lembrando a cada homem: Se queres um mundo melhor, comece-o dentro de si mesmo,
estenda-o para a sua casa, inunde a sua família de amor
e com tanto amor transbordando, espalhe às suas preciosas migalhas,
pelos famintos de misericórdia, pelos sedentos de compaixão,
então verás Deus onde Ele sempre esteve: em si mesmo,
e no rosto de cada ser humano,
que um dia aprenderás definitivamente a chamar de meu irmão.

Paulo Roberto Gaefke
www.meuanjo.com.br

segunda-feira, julho 03, 2006

Amor Sonho e Desejo


Sobre o teu corpo nu ao luar
Amo sonho e desejo
Numa volúpia de cristal banhado de luz
Erguendo as seivas no mar-prata
Mistura de espuma, sal sonoro, onda de espasmo
Beijo tacteando os teus lábios, na humidade azul de uma dança fecunda
Lágrimas esvoaçando no vento que vai torneando
O movimento dos corais, tudo intenso e sereno
Na alegria de existir sobre a ondulação doce
Num ciclo completo nos teus seios de astros cheios
Fogo vindo do interior secreto do oceano
Onde os amantes vão e vêm com as marés
Introduzindo a mensagem do coração pleno
No teu ventre estrelado, cometa de veludo
Sonho de via láctea abraço longo
Onde encontras e te perdes
Num enlevo de afago água e néctar
Cardumes emergindo em aplauso curvo
Sobre o teu corpo nu ao luar...

Eduardo Nascimento